- O teste de sentar e levantar do chão mede força, equilíbrio e flexibilidade: a nota vai de 0 a 10 e cai a cada apoio de mão ou joelho.
- Num estudo brasileiro com 4.282 adultos de 46 a 75 anos, quem tirou as notas mais baixas no teste do chão teve quase quatro vezes o risco de morrer de doença em 12 anos.
- Num estudo com quase 140 mil pessoas em 17 países, a força da mão previu o risco de morte melhor que a pressão arterial sistólica.
- Uma meta-análise de 2022, que somou 16 estudos, associou o treino de força a um risco 10% a 17% menor de morrer por qualquer causa e de ter doença do coração, câncer ou diabetes, com o maior benefício entre 30 e 60 minutos por semana.
Sentar no chão e levantar sem apoiar mão nem joelho é um teste de força, equilíbrio e flexibilidade. Num estudo brasileiro com 4.282 adultos de 46 a 75 anos, quem tirou nota de 0 a 4 teve quase quatro vezes o risco de morrer de doença em 12 anos, comparado a quem tirou 10.
O estudo saiu em 2026 no European Journal of Preventive Cardiology, por um grupo liderado por Claudio Gil Araújo, da clínica CLINIMEX, no Rio de Janeiro. Ele se soma a outros que mediram a força da mão e das pernas em vários países. A força andou junto com viver mais e com o raciocínio preservado, e contou mais que o tamanho do músculo.
Como funciona o teste de sentar e levantar do chão?
O teste de sentar e levantar do chão é uma avaliação em que a pessoa senta no chão e levanta de novo usando o mínimo de apoio possível. Sentar vale 5 pontos e levantar vale outros 5.
Cada apoio de mão ou de joelho tira 1 ponto. Uma perda de equilíbrio no meio do movimento tira meio ponto. Quem senta e levanta sem tocar em nada e sem balançar faz 10.
O teste parece simples porque é. Mas, segundo os próprios autores, ele depende ao mesmo tempo de força e potência muscular, flexibilidade, equilíbrio e composição corporal, que é quanto do corpo é músculo, gordura e osso.
O que o estudo brasileiro encontrou
Os 4.282 participantes fizeram o teste e foram acompanhados por cerca de 12 anos. Nesse período, 665 morreram.
A mortalidade subiu de forma contínua conforme a nota caía. Comparando o grupo de nota mais baixa (0 a 4) com o de nota 10, o risco de morrer por causas naturais, ou seja, de doença, foi 3,84 vezes maior. Para as mortes do coração e dos vasos, a diferença ficou perto de seis vezes, um número menos preciso, porque houve menos mortes desse tipo.
Os pesquisadores descontaram idade, sexo, peso e os dados clínicos de cada um. Mesmo assim, a nota do chão continuou ligada ao risco.
A força da mão diz a mesma coisa?
Diz, e por outro caminho. Em 2015, a revista The Lancet publicou o estudo PURE, que mediu a força do aperto de mão de 139.691 pessoas de 35 a 70 anos, em 17 países de renda alta, média e baixa, e as acompanhou por cerca de 4 anos.
A cada 5 kg a menos de força na mão, o risco de morrer por qualquer causa subiu 16%. A força da mão previu a morte por qualquer causa e a morte cardiovascular melhor que a pressão arterial sistólica, a "máxima" do aparelho de pressão.
A pressão continua importante. Pressão alta segue sendo tratada, e a força da mão não substitui o aparelho. Ela é mais um sinal, barato e rápido de medir.
Por que força conta mais que tamanho de músculo?
Porque, num estudo com 2.292 pessoas de 70 a 79 anos, a força previu o risco de morte e o tamanho do músculo quase não previu. O estudo saiu em 2006 no Journal of Gerontology e acompanhou os participantes por quase 5 anos.
Os pesquisadores mediram a força da coxa e da mão e mediram o tamanho do músculo por tomografia e densitometria, um exame de raio X que separa músculo, gordura e osso. Descontar o tamanho do músculo quase não mudou a ligação entre força e risco.
Os autores concluíram que a força funciona como marcador da qualidade do músculo, e que a qualidade pesa mais que a quantidade. Músculo e emagrecimento têm um texto próprio: o artigo sobre GLP-1 e massa muscular.
Força tem a ver com raciocínio?
Dois estudos apontam que sim. No primeiro, publicado em 2016 na revista Gerontology por pesquisadores do King's College London, 324 irmãs gêmeas de 43 a 73 anos tiveram a potência das pernas medida e repetiram testes de memória e raciocínio 10 anos depois. A irmã de pernas mais potentes perdeu menos raciocínio, e a diferença se manteve na comparação entre irmãs, que dividem genes e infância.
O segundo, publicado em 2022 no Journal of Cachexia, Sarcopenia and Muscle, seguiu 466.788 adultos do UK Biobank, um grande banco de dados de saúde britânico, por cerca de 9 anos. O quinto da população com a mão mais fraca teve risco 72% maior de demência que o quinto com a mão mais forte.
A força da mão e das pernas é um sinal de saúde, e é um dos poucos sinais que se treinam.
O que ainda não se sabe
Todos esses estudos acompanharam pessoas, sem sortear quem treina e quem não treina. Eles mostram que força e saúde andam juntas. Não provam que ganhar força, sozinha, faça viver mais. Os próprios autores do PURE escrevem que ainda falta testar se melhorar a força reduz a mortalidade.
Esperar essa prova para começar a treinar seria um erro. Em 2022, uma meta-análise do British Journal of Sports Medicine reuniu 16 estudos e associou o treino de força a um risco 10% a 17% menor de morrer por qualquer causa e de ter doença do coração, câncer ou diabetes. Para a morte por qualquer causa, o maior benefício apareceu entre 30 e 60 minutos por semana; acima disso, o ganho ficou incerto. O artigo sobre os esportes ligados a viver mais usa a mesma meta-análise.
A força entra ao lado da pressão arterial, não no lugar dela. Medir a força deveria ser tão comum quanto medir a pressão.
O que isso muda pra você
O teste do chão dá para fazer em casa, com alguém por perto e o chão livre em volta. Sente e levante com o mínimo de apoio e conte quantas vezes usou mão ou joelho. Usou? Isso indica que vale treinar força; o teste sozinho não diagnostica doença.
Quem tem dor no joelho, no quadril ou na coluna, teve queda recente ou sente tontura ao levantar não deve fazer o teste sozinho. Nesses casos, o teste e o treino vêm depois de uma avaliação médica individual.
Para o treino, a faixa associada a menos risco de morte cabe na semana: 30 a 60 minutos no total, com exercícios como levantar da cadeira, subir degrau e carregar peso. Força e composição corporal também se medem em consulta; veja o que se investiga numa avaliação.
Este texto é da Núcleo A+, em Alphaville, e se apoia em seis estudos publicados entre 2006 e 2026.
O autor declara não ter conflito de interesse.
Quer saber como está a sua força?
Veja como a avaliação é feita e o que ela investiga.
Conheça como funciona o atendimentoPerguntas frequentes
Quem não consegue levantar do chão sem as mãos está doente?
Não necessariamente. Precisar de apoio para levantar do chão não é diagnóstico de doença. Num estudo brasileiro com 4.282 adultos de 46 a 75 anos, a nota baixa no teste esteve ligada a mais risco de morte em 12 anos, mesmo descontando idade, peso e dados clínicos. O resultado indica que vale avaliar força, equilíbrio e flexibilidade e começar a treinar com orientação.
Qual pontuação no teste de sentar e levantar do chão é boa?
O teste vai de 0 a 10: 5 pontos para sentar e 5 para levantar, com 1 ponto a menos por apoio de mão ou joelho e meio ponto por perda de equilíbrio. No estudo brasileiro publicado em 2026, o risco de morte subiu de forma contínua conforme a nota caía, e o grupo com nota 10 teve o menor risco.
Pressão arterial ou força da mão: qual importa mais?
As duas importam, e uma não substitui a outra. No estudo PURE, com 139.691 pessoas em 17 países, a força da mão previu a morte por qualquer causa e a morte cardiovascular melhor que a pressão arterial sistólica. Pressão alta continua sendo tratada; a força da mão é um sinal a mais, simples e barato de medir.
Quanto treino de força por semana está ligado a menos risco de morte?
Uma meta-análise de 16 estudos, publicada em 2022 no British Journal of Sports Medicine, associou o treino de força a um risco 10% a 17% menor de morrer por qualquer causa e de ter doença do coração, câncer ou diabetes. Para a morte por qualquer causa, o maior benefício apareceu entre 30 e 60 minutos por semana. Acima de 60 minutos, o ganho extra ficou incerto. Quem tem dor articular ou doença deve começar com avaliação médica.
