Tênis ligado a 9,7 anos a mais de vida, academia a 1,5: o que explica esse ranking
Um estudo acompanhou 8.577 pessoas por 25 anos e comparou oito esportes. O resultado não é um convite para largar a musculação.
- O Copenhagen City Heart Study acompanhou 8.577 adultos por até 25 anos e comparou a expectativa de vida de quem praticava cada esporte com a de quem era sedentário.
- O tênis foi associado a 9,7 anos a mais de vida, o badminton a 6,2, o futebol a 4,7 e as atividades de academia a 1,5.
- Os autores observaram que os esportes jogados com outras pessoas ficaram no topo, e lembram que um estudo observacional não prova que o esporte cause os anos a mais.
- Uma meta-análise de 2022 associou o treino de força a um risco de morte 10% a 17% menor, por isso o ranking não é motivo para largar a musculação.
Entre oito esportes comparados num estudo dinamarquês de 25 anos, o tênis foi o mais associado a viver mais: 9,7 anos a mais que quem era sedentário. As atividades de academia ficaram em último lugar, com 1,5 ano.
O estudo saiu em setembro de 2018 na Mayo Clinic Proceedings, assinado por Peter Schnohr e colegas do Copenhagen City Heart Study. Desde então o número circula como "tênis dá dez anos de vida". Não foi isso que ele mostrou.
O ranking é real. O que ele mede, e o que ele não autoriza você a concluir, é o que decide se ele serve para alguma coisa na sua semana.
O que o estudo de Copenhague mediu
Os pesquisadores examinaram 8.577 moradores de Copenhague entre 1991 e 1994. Cada um respondeu a um questionário detalhado sobre os esportes e as atividades que praticava no tempo livre. Depois disso, o estudo registrou quem morreu e quando, até março de 2017.
Com esses dados, os autores estimaram quantos anos a mais cada grupo viveu em comparação com o grupo sedentário, já descontando as diferenças que eles conseguiram medir entre as pessoas.
Estudo observacional é aquele que acompanha o que as pessoas já fazem, sem sortear quem faz o quê. Ninguém foi mandado jogar tênis. Quem jogava, jogava por escolha própria, e é esse o limite de tudo o que vem abaixo.
O ranking completo dos oito esportes
Anos de vida a mais, em comparação com quem era sedentário:
- Tênis: 9,7 anos
- Badminton: 6,2 anos
- Futebol: 4,7 anos
- Ciclismo: 3,7 anos
- Natação: 3,4 anos
- Corrida: 3,2 anos
- Calistenia (exercício com o peso do próprio corpo): 3,1 anos
- Atividades de academia: 1,5 ano
Todos ficaram acima do sedentário. Nenhum esporte apareceu associado a viver menos.
Olhe a ordem. A corrida, que exige mais fôlego, ficou atrás do badminton. A natação, que trabalha o corpo inteiro, ficou atrás do futebol de fim de semana. Se o critério fosse esforço, a lista sairia em outra ordem.
Por que o tênis ficou à frente da corrida?
Os próprios autores apontam o que os três primeiros têm em comum: tênis, badminton e futebol se jogam com outra pessoa. Na conclusão, eles escrevem que os esportes com mais interação social foram os associados à maior longevidade e que isso merece ser investigado.
É uma hipótese, e das boas. Um jogo de tênis tem horário marcado com alguém que está esperando por você. Tem conversa antes e depois. Corrida, natação e academia costumam ser feitas sozinhas, com fone no ouvido.
Só que o mesmo desenho de estudo que sugere a hipótese impede de confirmá-la. Quem jogava tênis em Copenhague nos anos 1990 pode diferir de quem corria em mais coisas do que o esporte. O ajuste estatístico desconta as diferenças que foram medidas. O que não foi medido continua dentro do número.
Um ranking de esportes observado não é uma receita de esporte.
A academia perdeu?
Não do jeito que o ranking faz parecer. O resumo do estudo não detalha o que entrava em "atividades de academia" no começo dos anos 1990, e 1,5 ano a mais continua sendo ganho, não perda.
E o treino de força tem evidência própria, maior e mais recente. Em 2022, uma meta-análise publicada no British Journal of Sports Medicine reuniu 16 estudos de coorte e associou o treino de força a um risco de morte por qualquer causa de 10% a 17% menor. O maior benefício apareceu entre 30 e 60 minutos por semana. Quem somava treino de força a exercício aeróbico teve risco de morte ainda menor do que quem não fazia nenhum dos dois.
O músculo é a reserva que o corpo gasta com a idade e em todo emagrecimento, inclusive o feito com a caneta. Trocar a musculação pelo tênis por causa de um ranking é ler o estudo ao contrário.
O ranking de Copenhague não manda trocar a musculação pelo tênis. Ele mostra que os esportes jogados com outra pessoa foram os mais associados a viver mais.
O que isso muda pra você
Se você treina força, continue. É a base que protege músculo, osso e metabolismo, e a evidência para ela não depende deste estudo.
O que o ranking acrescenta é uma pergunta sobre o resto da semana: quanto do seu exercício acontece com alguém? Uma partida marcada com uma amiga, o futebol com os colegas, a aula em grupo. O estudo não prova que a companhia seja a causa. Mostra que, em 25 anos de Copenhague, foi ela que apareceu no topo.
E antes de escolher o esporte, vale saber de onde você parte. Força, massa muscular e composição corporal se medem, e é por essa medida que a investigação começa. A partir dela, o plano de exercício deixa de ser palpite. Veja como funciona o acompanhamento.
Quer saber quanto músculo você tem hoje?
A avaliação mede sua composição corporal e mostra onde o exercício precisa entrar.
Agendar avaliaçãoPerguntas frequentes
Qual esporte está mais associado a viver mais?
No Copenhagen City Heart Study, que acompanhou 8.577 adultos por até 25 anos, o tênis foi o esporte mais associado a viver mais: 9,7 anos a mais que o sedentário. Em seguida vieram o badminton, com 6,2 anos, e o futebol, com 4,7. O estudo é observacional e não prova que o esporte cause esses anos a mais.
Então a musculação não ajuda a viver mais?
Ajuda. No estudo de Copenhague, as atividades de academia foram associadas a 1,5 ano a mais de vida, o que ainda é ganho. E uma meta-análise de 2022 com 16 estudos de coorte associou o treino de força a um risco de morte 10% a 17% menor, com o maior benefício entre 30 e 60 minutos por semana.
Por que esportes em dupla ou em time ficaram no topo do ranking?
Os autores do estudo de Copenhague observaram que tênis, badminton e futebol, os três primeiros colocados, envolvem mais interação social, e apontaram isso como um achado a investigar. A hipótese é que jogar com outra pessoa traga compromisso e convívio. Como o estudo é observacional, ele não consegue confirmar essa explicação.
O que é um estudo observacional?
Estudo observacional é aquele que acompanha o que as pessoas já fazem, sem sortear quem faz o quê. Ele mostra associações, como "quem joga tênis viveu mais", mas não prova causa, porque quem escolhe um esporte pode diferir de quem escolhe outro em renda, saúde e hábitos que nem sempre foram medidos.
