- Jonathan, uma tartaruga-gigante de cerca de 194 anos que vive na ilha de Santa Helena, teve o DNA lido por cientistas num estudo publicado em outubro de 2026 na revista Science Advances.
- O estudo encontrou em Jonathan versões próprias de genes que consertam o DNA e de genes que freiam tumores, e apontou a via que fabrica o NAD, uma molécula que a célula usa para gerar energia, entre os genes favorecidos pela seleção natural.
- No DNA inteiro, Jonathan envelheceu como o esperado. Só em 272 promotores, que são as regiões que ligam e desligam genes, as marcas químicas do DNA dele estavam arrumadas como nas tartarugas de 5 e 12 anos, e 35 desses promotores são de genes da mitocôndria.
- O estudo da tartaruga não testou suplemento, e nenhum estudo em pessoas mostrou que suplementar NAD faça alguém viver mais.
O DNA de Jonathan, a tartaruga de cerca de 194 anos, mostrou genes próprios de conserto do DNA e de freio a tumores, e a via que fabrica o NAD entre os genes favorecidos pela seleção natural. Isso não prova que suplemento de NAD faça alguém viver mais, porque o estudo não mediu o NAD dele nem testou suplemento.
Na tartaruga, os genes que fabricam o NAD aparecem associados à longevidade. Hoje existe maneira de suplementar o NAD em pessoas. Uma coisa não necessariamente liga à outra.
Quem é Jonathan e o que leram no DNA dele?
Jonathan é uma tartaruga-gigante de Aldabra que vive na ilha de Santa Helena, no meio do Atlântico, e é o animal terrestre vivo mais velho que se conhece. Em outubro de 2026, uma equipe de pesquisadores publicou na Science Advances a leitura do DNA dele, tanto a sequência dos genes quanto as marcas químicas presas a ele.
A idade é estimada, e ele teria nascido por volta de 1832. A amostra foi um raspado de dentro da boca, colhido em 2017. O DNA de Jonathan foi comparado com o de quatro tartarugas da mesma espécie, de 5 anos a adultas, e com genomas de outras tartarugas gigantes.
O que as marcas do DNA de Jonathan mostraram?
Metilação do DNA é um conjunto de marcas químicas presas ao DNA que ajudam a ligar e desligar genes sem mudar a sequência deles. Com a idade, essas marcas se bagunçam, e um estudo de 2013 na revista Molecular Cell já mediu isso em 656 adultos.
No DNA inteiro, Jonathan envelheceu como o esperado. Nas tartarugas, a bagunça média de cada uma acompanhou a idade dela, e a de Jonathan ficou acima da das jovens. Só em 272 promotores, as regiões que funcionam como interruptor de um gene, as marcas dele estavam arrumadas como nas tartarugas de 5 e de 12 anos. Nas duas tartarugas adultas, esses mesmos promotores estavam bagunçados. Entre os 272, 35 são de genes da mitocôndria, a parte da célula que fabrica energia.
O estudo não diz que o DNA de Jonathan é jovem. Diz que uma parte pequena dele, que inclui genes de energia da célula, ficou com o padrão das tartarugas jovens.
Quais genes de Jonathan são diferentes?
São 287 genes com mudanças que só ele tem entre os animais comparados. Entre eles há genes de dois caminhos ligados ao envelhecimento, o conserto do DNA e o freio de tumores, que impede uma célula de crescer sem controle.
O NAD vem de outra análise. Entre os 770 genes que ela apontou como favorecidos pela seleção natural, está a via que fabrica o NAD. O NAD é uma molécula que toda célula usa para transformar alimento em energia e para consertar o próprio DNA.
O que o estudo da tartaruga não mostrou?
O NAD de Jonathan não foi medido. Os autores escrevem que a relação entre o NAD e a idade nem foi estudada em tartarugas.
É um animal só, comparado com quatro da mesma espécie, e só duas delas adultas. Os 272 promotores arrumados foram escolhidos por terem esse padrão, dentro de cerca de 10% dos promotores que o método conseguiu avaliar.
Os próprios autores dizem que os dados não bastam para concluir causa. O estudo descreve o que Jonathan tem e não explica por que ele vive tanto.
Nada disso diminui o achado. Um animal de 194 anos com promotores de genes de energia arrumados como os de uma tartaruga de 12 anos é uma pista boa para a pesquisa. Pista, e numa espécie que não é a nossa.
Por que o achado não vira prova para suplemento de NAD?
Porque a pergunta sobre gente é outra, e precisa ser medida em gente. Em pessoas, o que se quer saber é se tomar NAD de fora faz viver mais.
O NAD de pessoas cai com a idade. Uma revisão de 2024 na revista Aging Cell reúne estudos com queda de 10% a 50% em tecidos humanos ao longo da vida adulta. A mesma revisão diz que ainda não se sabe se o NAD baixo causa o envelhecimento ou é consequência dele.
O suplemento já foi testado em pessoas, e o que esses ensaios mediram está no artigo sobre NAD e coenzima Q10.
Nenhum ensaio com suplemento de NAD em pessoas acompanhou os participantes por tempo suficiente para saber se eles vivem mais. Uma revisão sistemática de 2024 no American Journal of Physiology-Endocrinology and Metabolism, com 10 ensaios e 489 participantes, considerou o efeito clínico incerto.
Um animal só levanta uma pergunta. A resposta sobre gente vem de estudo com gente.
Gene de tartaruga não vem em cápsula. Na tartaruga, os genes que fabricam o NAD aparecem junto da longevidade, e nenhum estudo mostrou que tomar NAD faça uma pessoa viver mais.
O que isso muda pra você
Se a tartaruga de 194 anos aparecer como argumento para você tomar NAD, pergunte o que foi medido, em quem e por quanto tempo.
Suplementar ou não é decisão para tomar com um médico, com os seus exames e a sua história na mesa, e não com base no DNA de uma tartaruga.
Este texto é da Núcleo A+, clínica em Alphaville, e se apoia em estudos publicados entre 2013 e 2026.
O autor declara não ter conflito de interesse.
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Conheça como funciona o atendimentoPerguntas frequentes
Por que a tartaruga Jonathan vive tanto?
Ninguém sabe ainda. O estudo publicado em outubro de 2026 na revista Science Advances leu o DNA de Jonathan, tartaruga-gigante de cerca de 194 anos, e achou genes próprios de conserto do DNA e de freio a tumores. A via que fabrica o NAD apareceu entre os genes favorecidos pela seleção natural. Os autores dizem que os dados não bastam para concluir causa. O estudo descreve o que Jonathan tem, sem explicar a longevidade.
O que é metilação do DNA?
Metilação do DNA é um conjunto de marcas químicas presas ao DNA que ajudam a ligar e desligar genes sem mudar a sequência deles. Com a idade, essas marcas se bagunçam, e um estudo de 2013 na revista Molecular Cell já mediu isso em 656 adultos. Em tartarugas, um estudo de 2026 viu a bagunça média acompanhar a idade de cada animal.
Existe estudo mostrando que suplemento de NAD faz viver mais?
Não. Os ensaios com suplemento de NAD em pessoas mediram segurança e efeito clínico, com tempo de acompanhamento que variou entre os estudos. Uma revisão sistemática de 2024 no American Journal of Physiology-Endocrinology and Metabolism, com 10 ensaios e 489 participantes, considerou o efeito clínico incerto. Nenhum desses ensaios acompanhou as pessoas por tempo suficiente para saber se elas vivem mais.
