Dr. Vinícius Augusto Silva Santos · Médico · CRM-SP 205908
Blog·Longevidade·8 de outubro de 2026·5 min de leitura

Lipoproteína(a): o exame de colesterol que se faz uma vez na vida

Ela vem dos genes e não aparece no exame de rotina. Quando vem alta, muda a meta de todo o resto.

  • A lipoproteína(a), ou Lp(a), é uma partícula de colesterol herdada dos pais que aumenta o risco de infarto.
  • O exame de colesterol de rotina não mede a Lp(a); ela tem pedido próprio.
  • A diretriz brasileira de 2025 recomenda dosar a Lp(a) uma vez na vida em todos os adultos, porque o valor quase não muda com os anos.
  • Quem tem a Lp(a) alta passa a cuidar com mais rigor do LDL, da pressão e do açúcar, e a família também faz o exame.

Seu exame de colesterol pode ter vindo todo dentro da referência e ainda assim faltar um número: a lipoproteína(a). É um exame de sangue que, para a maioria dos adultos, se faz uma vez na vida, porque o valor vem dos genes e quase não muda com os anos.

A Diretriz Brasileira de Dislipidemias, publicada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia em 2025, recomenda dosar a Lp(a) uma vez na vida em todos os adultos. O consenso europeu de 2022 vai além e diz que o melhor momento é o primeiro exame de colesterol da pessoa. Se você já fez vários e nunca viu essa linha no laudo, ainda dá tempo.

O que é a lipoproteína(a)?

A lipoproteína(a) é uma partícula que carrega colesterol no sangue, parecida com o LDL, o chamado colesterol ruim, com uma proteína a mais grudada nela. Essa proteína extra deixa a partícula mais propensa a formar placa na parede da artéria.

O consenso da Sociedade Europeia de Aterosclerose, de 2022, reúne estudos genéticos que ligam a Lp(a) alta a três problemas principais: infarto, AVC isquêmico e estreitamento da válvula aórtica, a válvula por onde o sangue sai do coração. No AVC, o risco só sobe de forma clara nos 5% de pessoas com os valores mais altos.

A Lp(a) vem de fábrica. A família decide o número; você decide o que fazer com ele.

Por que o exame de colesterol de rotina não mostra a Lp(a)?

O perfil lipídico de rotina traz colesterol total, LDL, HDL e triglicérides. A Lp(a) é um exame separado, com pedido próprio. Por isso dá para ter o LDL ótimo e a Lp(a) alta ao mesmo tempo, e a diretriz brasileira diz que ela continua sendo fator de risco mesmo em quem tem LDL baixo.

Há quem leia a Lp(a) como o LDL com outro nome. São medidas diferentes, e o LDL do laudo não avisa quando a Lp(a) está alta.

Por que basta medir uma vez?

Mais de 90% do valor da Lp(a) é definido pelos genes, segundo a diretriz brasileira e o consenso europeu. O nível de adulto aparece já na infância e fica estável pela vida, o que faz a diretriz brasileira escrever que medidas repetidas não são necessárias para avaliar o risco.

Dieta e exercício também quase não mexem nesse número, e as estatinas, os remédios mais usados para colesterol, não o reduzem. Nenhum deles deve ser largado por isso. Eles continuam cuidando do resto do risco do coração.

Há poucas situações em que vale repetir, como doença renal, doença do fígado ou infecção aguda no dia da coleta. Nas mulheres, a diretriz brasileira registra um aumento discreto no climatério, a fase de transição para a menopausa.

A Lp(a) não se trata com dieta nem com estatina. Ela muda a meta de todo o resto, e é por isso que precisa ser conhecida.

Quanto é Lp(a) alta?

Pela diretriz brasileira, a partir de 50 mg/dL, ou 125 nmol/L, a Lp(a) passa a pesar no cálculo de risco do coração. Acima de 180 mg/dL, o risco se parece com o de quem herdou colesterol alto de família.

Os laboratórios usam duas unidades, mg/dL e nmol/L, e elas não se convertem com exatidão. Compare o seu resultado com a referência impressa no próprio laudo, na mesma unidade. A diretriz brasileira estima que cerca de 1 em cada 5 pessoas de origem europeia tem a Lp(a) acima de 50 mg/dL; entre afro-americanos, nos Estados Unidos, chega a 4 em cada 10.

E o remédio para baixar a Lp(a)?

Ainda não existe remédio aprovado para baixar especificamente a Lp(a). Em 4 de setembro de 2026, a Novartis anunciou o resultado do primeiro grande estudo de um desses remédios, com mais de 8 mil pessoas que já tinham doença nas artérias e Lp(a) alta. O remédio baixou a Lp(a), mas não reduziu o conjunto de infarto, AVC, morte cardiovascular e desentupimento de artéria às pressas, que era o objetivo principal do estudo. Pelo menos outros três remédios seguem em estudo; pelo registro público de pesquisas clínicas, os resultados estão previstos a partir de 2028.

Isso não muda a recomendação de medir. O valor do exame nunca dependeu de um remédio específico. Ele serve para mostrar quem precisa apertar o controle de tudo o que já se sabe tratar.

O que muda para você se a Lp(a) vier alta

Com a Lp(a) alta, a diretriz brasileira e o consenso europeu recomendam cuidar mais cedo e com mais rigor dos outros fatores de risco: LDL, pressão, glicose e estilo de vida. Em quem fica no meio do caminho no cálculo de risco do coração, o risco intermediário, a diretriz brasileira indica o escore de cálcio, uma tomografia que mede cálcio nas artérias do coração, para ajudar a decidir o tratamento.

O outro passo é a família. Como a Lp(a) é herdada, a diretriz brasileira recomenda avaliar os familiares de quem tem o valor alto, e o consenso europeu começa por pais, irmãos e filhos. Um resultado seu pode mudar o cuidado de várias pessoas da casa.

Se você ainda não sabe a sua Lp(a), vale levar a pergunta à próxima avaliação médica. A leitura do resultado depende do seu risco como um todo, e quem faz essa leitura é a avaliação individual. Para entender por que um exame "normal" nem sempre fecha o quadro, leia exame normal não quer dizer saudável. Para a relação entre menopausa e artérias, veja o calorão e as artérias do coração.

Este texto é da Núcleo A+, em Alphaville, e segue a Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025. Conheça como funciona o atendimento.

O autor declara não ter conflito de interesse.

Você sabe a sua Lp(a)?

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Perguntas frequentes

Precisa de jejum para o exame de lipoproteína(a)?

Não. Segundo a diretriz brasileira de dislipidemias de 2025, a Lp(a) não é influenciada pelo estado de jejum, e o colesterol total, o LDL e o HDL também não mudam de forma relevante depois de comer. O exame pode ser colhido na mesma coleta dos outros exames de sangue, desde que venha pedido pelo nome, sem preparo especial além do que o laboratório pedir para os demais.

O plano de saúde cobre o exame de Lp(a)?

Depende do plano. A lipoproteína(a) tem código próprio na tabela de procedimentos da saúde suplementar, mas não aparece pelo nome no Rol de procedimentos de cobertura obrigatória da ANS, conferido em outubro de 2026. Antes de colher, vale perguntar ao plano ou ao laboratório se o exame tem cobertura e, se não tiver, qual é o valor.

Se a minha Lp(a) deu alta, meus filhos precisam fazer o exame?

A diretriz brasileira recomenda avaliar a família de quem tem Lp(a) a partir de 50 mg/dL, porque o valor é quase todo herdado. O consenso europeu começa por pais, irmãos e filhos. Em crianças e jovens, o consenso europeu indica o exame quando há Lp(a) muito alta na família, quando o próprio jovem teve AVC ou quando pai ou mãe teve doença nas artérias cedo.

Dieta ou exercício baixam a Lp(a)?

Não de forma relevante. O consenso europeu de 2022 classifica o efeito da atividade física como nenhum ou mínimo, e a diretriz brasileira afirma que a Lp(a) não é influenciada por dieta nem estilo de vida. O que dieta e exercício fazem é cuidar do resto do risco do coração, e isso pesa mais em quem tem a Lp(a) alta.

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