Dr. Vinícius Augusto Silva Santos · Médico · CRM-SP 205908
Blog·Hormônios·19 de outubro de 2026·5 min de leitura

Testosterona na mulher vai além da libido: o que os estudos ligam a osso, músculo, memória e bexiga

As pesquisas mediram a testosterona que o próprio corpo produz e encontraram associações fora do desejo sexual. O que elas não testaram é a reposição.

  • O corpo da mulher produz testosterona, e oito estudos publicados entre 2002 e 2025 associam o nível desse hormônio a osso, músculo, memória, joelho e bexiga.
  • Num estudo de 2025 com 126.109 mulheres na pós-menopausa, o menor risco de demência ficou na segunda faixa mais alta de testosterona livre, e não na mais alta.
  • Os estudos que ligam a testosterona a osso, músculo, memória, joelho e bexiga mediram o hormônio que o próprio corpo produz e não testaram reposição.

A testosterona da mulher vai além do desejo sexual. Seis estudos publicados de 2018 a 2025 associam mais testosterona do próprio corpo a osso mais denso na coluna, menos artrose de joelho e menos perda de urina ao esforço. No músculo, a ligação apareceu só na parte do hormônio disponível para os tecidos.

Associação não prova causa. Nenhum desses estudos deu testosterona a alguém. Eles mediram o hormônio no sangue e compararam quem tinha mais com quem tinha menos. Em 2026, uma revisão publicada na Sexual Medicine Reviews juntou essa pesquisa sob o título "além da libido".

O que é testosterona endógena?

Testosterona endógena é a testosterona que o próprio corpo produz, sem vir de remédio ou de reposição. É dela que tratam todos os estudos de associação deste texto.

No sangue, parte do hormônio viaja presa a uma proteína de transporte, a SHBG, e parte fica mais disponível para os tecidos. O exame pode mostrar a testosterona total, que soma tudo, ou frações dela, como a livre e a biodisponível.

O que os estudos encontraram no osso e no músculo?

A coluna é onde o osso foi medido. Um estudo de 2022 na Scientific Reports, com 2.198 mulheres de 40 a 60 anos da pesquisa nacional de saúde dos Estados Unidos, encontrou densidade óssea maior na coluna lombar em quem tinha mais testosterona, descontados idade, peso e uso de hormônio, anticoncepcional e corticoide. Foi uma medida só, num momento só, e fratura não foi avaliada.

O músculo trouxe outra pista, sobre a fração do hormônio. Em 2025, no Journal of Physiology, 27 mulheres jovens que não treinavam fizeram 12 semanas de musculação. Quem tinha mais testosterona biodisponível ganhou mais músculo; a testosterona total não fez diferença. O grupo era pequeno e jovem, sem grupo de comparação, e não diz nada sobre a mulher na menopausa.

E na memória?

Na memória, o dado é mais fraco. Em 2002, na Hormones and Behavior, num grupo de 38 mulheres com média de 68 anos, as que tinham mais testosterona se saíram um pouco melhor num teste de memória verbal. Os próprios autores chamam o estudo de pequeno.

O estudo grande saiu em 2025, na Clinical Endocrinology, com dados do biobanco do Reino Unido: 126.109 mulheres na pós-menopausa, acompanhadas por cerca de 12 anos e divididas em cinco faixas de testosterona livre. O menor risco ficou na segunda faixa mais alta, com 16% menos demência e 24% menos Alzheimer do que na faixa mais baixa, e não na faixa mais alta.

O que os estudos viram no joelho e na bexiga?

A artrose de joelho tem associação pequena, vista em mais de um país. Em 2025, na Osteoarthritis and Cartilage, um estudo com 178.280 mulheres do Reino Unido, média de 56 anos, mostrou 9% menos chance de artrose de joelho a cada desvio-padrão a mais de testosterona, a unidade de variação que o estudo usou; o estradiol não se associou. Em Roterdã, na Holanda, outro estudo de 2025 viu menos dor crônica nova no joelho em quem tinha mais testosterona livre. Na mão, não apareceu associação.

A bexiga entra pela perda de urina ao esforço, a que escapa na tosse, no espirro ou na risada.

Em 2018, no Journal of Urology, entre 2.321 mulheres dos Estados Unidos, as que estavam na faixa mais baixa de testosterona tiveram 45% mais chance de perda de urina ao esforço e 68% mais da forma mista, que junta esforço e urgência. Com a urgência sozinha, não apareceu associação.

Em 2023, um estudo de Xangai achou testosterona mais baixa em mulheres na pós-menopausa operadas por perda de urina ao esforço do que em mulheres da mesma idade e peso sem o problema.

A urgência para urinar e a infecção urinária de repetição na menopausa têm artigo próprio aqui no blog.

Um hormônio associado ao osso, ao músculo e à bexiga ainda não é um tratamento para osso, músculo e bexiga.

O que esses estudos não testaram?

Esses estudos não testaram a reposição de testosterona. Mulheres com mais testosterona podem ser diferentes em outras coisas, na atividade física ou na saúde geral, e a medida única não separa uma coisa da outra.

O único ensaio clínico da revisão de 2026 nesses temas, aquele em que o tratamento é sorteado, foi publicado em 2025 na JAMA Network Open. Foram 129 mulheres de 65 anos ou mais, depois de cirurgia por fratura de quadril, por 24 semanas. Com exercício e testosterona, a distância caminhada em 6 minutos aumentou 42,7 metros; com exercício e placebo, um produto igual sem hormônio, aumentou 40,5 metros. Não houve diferença.

No Brasil, a Resolução CFM nº 2.333/2023 registra a ausência de comprovação científica de uma doença causada por testosterona baixa na mulher. A exposição de motivos da mesma resolução reconhece o uso de androgênio, a família de hormônios da testosterona, em mulher apenas a curto prazo, no desejo sexual hipoativo diagnosticado, nome médico para a falta de desejo sexual que incomoda.

A testosterona do próprio corpo da mulher aparece ligada a osso, músculo, memória, joelho e bexiga. O que a pesquisa ainda não mostrou é que repor testosterona melhore osso, músculo, memória, joelho ou bexiga.

O que isso muda pra você

Esses estudos autorizam tirar a testosterona da mulher da conversa só sobre libido. Não autorizam concluir que repor testosterona resolve osso, músculo ou memória.

Este texto é da Núcleo A+, clínica em Alphaville, e se apoia em estudos publicados entre 2002 e 2026 e na Resolução CFM nº 2.333/2023.

O autor declara não ter conflito de interesse.

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Perguntas frequentes

Testosterona baixa na mulher causa osteoporose?

Não há prova disso. Um estudo de 2022 na revista Scientific Reports, com 2.198 mulheres de 40 a 60 anos dos Estados Unidos, associou mais testosterona a densidade óssea maior na coluna, mesmo descontando idade, peso e uso de hormônio. O estudo mediu o hormônio uma vez, num momento só, e não acompanhou fraturas. Associação num exame não mostra que a testosterona baixa causou a perda de osso.

Testosterona mais alta é sempre melhor para a mulher?

Não pelos estudos disponíveis, que mediram o hormônio do próprio corpo e não testaram reposição. Num estudo de 2025 na revista Clinical Endocrinology, com 126.109 mulheres na pós-menopausa acompanhadas por cerca de 12 anos, o menor risco de demência ficou na segunda faixa mais alta de testosterona livre, e não na mais alta. Nesse estudo, ter mais não foi sinônimo de ter menos risco.

Repor testosterona melhora osso, músculo ou memória na mulher?

Isso ainda não foi mostrado. Os estudos que ligam a testosterona a osso, músculo e memória mediram o hormônio do próprio corpo. No único ensaio sorteado nesses temas, publicado em 2025 na revista JAMA Network Open, com 129 mulheres após fratura de quadril, somar testosterona ao exercício não aumentou a caminhada de 6 minutos. No Brasil, a Resolução CFM nº 2.333/2023 registra que não há comprovação de doença causada por testosterona baixa na mulher.

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