- Secura vaginal, ardor, vontade urgente de urinar e infecção urinária que volta fazem parte da mesma síndrome da menopausa, ligada à queda do estrogênio.
- O nome médico desse conjunto é síndrome geniturinária da menopausa, adotado em 2014 no lugar de "atrofia vulvovaginal" para incluir a bexiga e a uretra.
- Num estudo brasileiro de 2025 com 749 mulheres de 45 a 60 anos, 51,4% tinham a síndrome geniturinária da menopausa.
- Numa revisão de 2021 que juntou os resultados de 8 estudos, o estrogênio aplicado na vagina reduziu a infecção urinária de repetição para menos da metade do risco; o estrogênio em comprimido não mostrou esse efeito.
Na menopausa, a secura vaginal faz parte de um quadro maior. Ardor ao sentar ou ao urinar, vontade urgente de ir ao banheiro e infecção urinária que volta entram na mesma síndrome, ligada à queda do estrogênio nos tecidos da vagina, da vulva, da uretra e da bexiga.
Por isso a secura também aparece longe da relação. Ela está no banco do carro, na caminhada, na calça mais justa e no exame de urina que deu infecção pela terceira vez no ano.
O que é a síndrome geniturinária da menopausa?
A síndrome geniturinária da menopausa é o conjunto de sintomas e sinais associados à queda do estrogênio e de outros hormônios sexuais nos lábios, no clitóris, na entrada da vagina, na vagina, na uretra e na bexiga.
O nome foi definido em 2014, num consenso de duas sociedades médicas, a internacional de saúde sexual da mulher e a norte-americana de menopausa. Antes se falava em "atrofia vulvovaginal". O termo antigo deixava a bexiga de fora, e esse foi um dos motivos da troca.
Entram na síndrome a secura, o ardor e a irritação; a falta de lubrificação e a dor na relação; e, do lado urinário, a urgência, a dor ao urinar e a infecção urinária de repetição. Para contar como síndrome, os sintomas precisam incomodar e não ter outra explicação.
Por que a bexiga entra nessa história?
A vagina, a uretra e a base da bexiga dependem do estrogênio para manter a parede espessa, úmida e elástica. Com ele, a vagina abriga bactérias boas, os lactobacilos, que produzem ácido e mantêm o ambiente pouco amigável para bactérias de fora.
Quando o estrogênio cai, a parede afina e resseca, os lactobacilos somem e o ambiente fica menos ácido. Bactérias que vêm do intestino passam a ocupar o lugar deles, e o caminho até a uretra é curto. A infecção urinária que volta é, em parte, consequência dessa troca de moradores.
Um estudo publicado em 1993 no New England Journal of Medicine mediu essa troca em 93 mulheres na pós-menopausa com infecção urinária de repetição. Com estrogênio aplicado na vagina, o pH vaginal, a medida de acidez (quanto menor, mais ácido), caiu de 5,5 para 3,8, e os lactobacilos voltaram em 61% das que completaram o estudo. No grupo que recebeu placebo, um produto igual mas sem hormônio, não voltaram em nenhuma. No mesmo período, quem usou o estrogênio teve 0,5 infecção urinária por ano; quem usou placebo, 5,9.
Quantas mulheres têm, e quantas sabem disso?
Num inquérito feito de casa em casa e publicado em 2025 na revista Menopause, um grupo da Unicamp ouviu 749 mulheres de 45 a 60 anos. A síndrome geniturinária apareceu em 51,4%. Uma em cada quatro tinha secura todos os dias, e 35% tinham dor na relação.
Pouca gente sabe do que se trata. Na pesquisa VIVA-LATAM, com 2.509 mulheres de 55 a 65 anos em cinco países, incluindo o Brasil, só 6% de todas as entrevistadas atribuíram os sintomas à mudança hormonal da vagina. Entre as 504 brasileiras da mesma pesquisa, 75% não sabiam que o quadro é crônico. E a secura não vem de falta de higiene nem de falta de desejo.
O Dr. Vinícius Augusto, médico em Alphaville, resume assim:
"Secura, ardor e infecção de repetição não precisam ser aceitos como coisa da idade."
Por que a infecção urinária volta depois do antibiótico?
Cada infecção urinária precisa ser tratada. Mas, depois da menopausa, o antibiótico resolve a infecção daquela semana e deixa o terreno igual. A parede continua fina e sem lactobacilos.
Uma revisão de 2021 no International Urogynecology Journal juntou os resultados de 8 estudos em que o tratamento foi sorteado. Nos 5 que testaram estrogênio aplicado na vagina, com 1.936 mulheres, o risco de nova infecção urinária caiu 58%, para menos da metade. Nos 3 que testaram estrogênio em comprimido, não houve efeito sobre a infecção.
Mulher na pós-menopausa com infecção urinária de repetição merece que alguém olhe também para a vagina.
A secura, o ardor e a infecção que volta fazem parte da mesma síndrome. Tratar só a infecção da vez deixa a causa no lugar.
O que existe para cuidar da secura vaginal?
A posição de 2020 da sociedade norte-americana de menopausa (na época NAMS, hoje The Menopause Society) organiza o cuidado pela intensidade. Hidratantes e lubrificantes vaginais vendidos sem receita bastam para a maioria das mulheres com sintomas leves.
Para sintomas moderados ou fortes, a mesma posição lista o estrogênio em dose baixa aplicado na vagina, a reposição hormonal pelo corpo todo e outras opções de prescrição. A escolha depende dos sintomas e da história de saúde de cada mulher.
Estrogênio aplicado na vagina em dose baixa não é a mesma coisa que reposição hormonal pelo corpo todo. O artigo sobre reposição hormonal e câncer de mama aprofunda esse ponto. Quem já teve câncer de mama decide qualquer opção hormonal junto com o oncologista.
O que isso muda pra você
Se você está na menopausa e tem um ou mais destes sinais, eles podem ter a mesma origem:
- secura ou ardor na vagina, mesmo fora da relação; - dor ou desconforto na relação; - vontade urgente de urinar ou ardor ao urinar; - infecção urinária três ou mais vezes no ano.
Conte todos na consulta, inclusive os que parecem sem relação entre si. O diagnóstico da síndrome vem da conversa e do exame físico, não de exame de sangue. Veja o que se investiga numa avaliação.
Este texto é da Núcleo A+, em Alphaville, e se apoia em consensos e estudos publicados entre 1993 e 2025.
O autor declara não ter conflito de interesse.
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Veja como a consulta é feita e o que ela investiga.
Conheça como funciona o atendimentoPerguntas frequentes
Secura vaginal na menopausa passa sozinha?
Em geral, não. A síndrome geniturinária da menopausa vem da falta de estrogênio nos tecidos, e essa falta continua depois da menopausa. Os autores da VIVA-LATAM, pesquisa feita com mulheres de cinco países da América Latina, tratam o quadro como crônico, e 75% das 504 brasileiras ouvidas não sabiam disso. Esperar que passe sozinho não costuma resolver; existe cuidado para cada intensidade.
Lubrificante resolve a secura vaginal da menopausa?
Para sintomas leves, muitas vezes sim. A posição de 2020 da sociedade norte-americana de menopausa diz que hidratantes e lubrificantes vaginais sem receita bastam para a maioria das mulheres com sintomas leves. Para sintomas moderados ou fortes, a mesma posição lista opções de prescrição, como o estrogênio em dose baixa aplicado na vagina. Quem sente incômodo que não passa com o lubrificante merece uma avaliação.
Estrogênio vaginal é a mesma coisa que reposição hormonal?
Não. O estrogênio vaginal em dose baixa age no tecido da vagina, da uretra e da bexiga, onde aparecem os sintomas da síndrome. A posição de 2020 da sociedade norte-americana de menopausa lista o estrogênio vaginal e a reposição hormonal pelo corpo todo como opções diferentes. Quem já teve câncer de mama decide qualquer opção hormonal junto com o oncologista.
Infecção urinária de repetição na menopausa tem a ver com hormônio?
Pode ter. Sem estrogênio, a vagina perde os lactobacilos, fica menos ácida e passa a abrigar bactérias do intestino, que chegam à uretra com facilidade. Numa revisão de 2021 que juntou 8 estudos, o estrogênio aplicado na vagina reduziu o risco de nova infecção urinária para menos da metade. O estrogênio em comprimido não teve esse efeito.
