Reposição hormonal dá câncer de mama? Com um hormônio o risco subiu cedo. Com outro, não subiu em cinco anos
O risco medido nos estudos muda com o hormônio que acompanha o estrogênio e com o tempo de uso, e fica ao lado de peso, álcool, sedentarismo e cigarro.
- No maior estudo com sorteio sobre reposição hormonal, com acompanhamento de 20 anos publicado na revista médica JAMA em 2020, as mulheres que tomaram estrogênio com progestagênio sintético (diferente da progesterona do corpo) tiveram 28% mais câncer de mama que as que tomaram comprimido sem hormônio.
- Reposição hormonal com estrogênio e progesterona igual à do corpo não aumentou o risco de câncer de mama em até cinco anos de uso, segundo revisão de 2018 da revista médica Climacteric; depois de cinco anos, o risco subiu também com ela, na análise da revista Lancet de 2019.
- Quem usava estrogênio com progestagênio, quase sempre o sintético, havia de um a quatro anos teve risco de câncer de mama 60% maior que quem nunca fez reposição hormonal, na análise da revista Lancet de 2019, aumento da mesma ordem do de quem bebe mais de quatro doses por dia (61%, British Journal of Cancer, 2015).
- Depois da menopausa, cada 5 kg ganhos na vida adulta se associam a 8% mais risco de câncer de mama, segundo revisão de estudos de 2021 da revista Obesity Research & Clinical Practice.
Na reposição hormonal, o risco de câncer de mama depende do hormônio e do tempo de uso. Nos estudos, subiu nos primeiros anos com progestagênio sintético. Com progesterona igual à do corpo, não subiu em até cinco anos.
Progestagênio é o segundo hormônio da reposição, o que acompanha o estrogênio em quem tem útero. Ele pode ser sintético ou pode ser a progesterona igual à que o corpo produz. Os estudos mediram os dois separados, e os resultados foram diferentes.
Se o seu medo veio de casa, de uma mãe ou de uma tia que teve câncer de mama fazendo reposição, ele tem base. Só não registra qual reposição era, nem os quatro fatores que outros estudos põem na mesma conta: peso, álcool, sedentarismo e cigarro.
O que é reposição hormonal?
Reposição hormonal é o tratamento que devolve ao corpo hormônios que os ovários deixam de produzir na menopausa, a começar pelo estrogênio. O progestagênio entra para proteger o revestimento interno do útero.
Cada combinação é um esquema, e os estudos mediram três: estrogênio com progestagênio sintético, estrogênio com progesterona igual à do corpo (chamada de micronizada) e só estrogênio.
Quem diz que "reposição hormonal dá câncer" está juntando os três num nome só.
O que os estudos mediram em cada esquema?
Com progestagênio sintético, o risco subiu
As mulheres que tomaram estrogênio com um progestagênio sintético tiveram 28% mais câncer de mama que as que tomaram placebo, o comprimido sem hormônio. O número é do WHI, o maior estudo sobre reposição hormonal em que um sorteio decidiu quem tomava o quê, feito nos Estados Unidos com mais de 16 mil mulheres de 50 a 79 anos. Elas usaram os hormônios por cerca de cinco anos e meio e foram acompanhadas por mais de 20, com resultado publicado na revista médica JAMA em 2020.
O risco cresce com o tempo de uso. Uma análise publicada na revista médica Lancet em 2019 juntou mais de 100 mil mulheres com câncer de mama, de 24 estudos. Quem usava estrogênio com progestagênio, quase sempre o sintético, havia de um a quatro anos teve risco 60% maior que quem nunca usou. Entre cinco e catorze anos de uso, cerca do dobro.
Pela conta dos autores do Lancet, sem reposição cerca de 6 em cada 100 mulheres têm câncer de mama entre os 50 e os 69 anos. Com cinco anos de estrogênio e progestagênio diário a partir dos 50, seriam cerca de 8 em cada 100.
Com progesterona igual à do corpo, não subiu em até cinco anos
Com estrogênio e progesterona igual à do corpo, o risco de câncer de mama foi igual ao de quem nunca fez reposição. Com a maioria dos progestagênios sintéticos, foi 69% maior. A comparação vem de um estudo francês que acompanhou 80.377 mulheres, publicado em 2008 na revista Breast Cancer Research and Treatment.
Uma revisão publicada em 2018 na revista Climacteric concluiu que estrogênio com progesterona igual à do corpo não aumenta o risco de câncer de mama por até cinco anos de tratamento. Depois de cinco anos, a mesma revisão diz que há evidência limitada de aumento.
A análise do Lancet vai na mesma direção depois dos cinco anos. Nela, a progesterona igual à do corpo era rara, e as poucas mulheres que a usavam havia mais de cinco anos tiveram risco cerca de duas vezes maior.
Nos estudos, o risco de câncer de mama subiu cedo com estrogênio e progestagênio sintético e não subiu em até cinco anos com estrogênio e progesterona igual à do corpo.
Só com estrogênio, os estudos divergem
Num segundo estudo do WHI, com outras mulheres, as sorteadas para usar só estrogênio tiveram 22% menos câncer de mama que as do placebo. Todas já tinham tirado o útero, por critério do estudo, e começaram a reposição em média aos 64 anos, bem depois da menopausa. Na análise do Lancet, o resultado foi o contrário, com risco 17% maior de um a quatro anos de uso e 33% maior entre cinco e catorze.
Os autores do Lancet levantam a idade de início e o acaso como explicações para a diferença. Também registram que a combinação com progestagênio teve aumento maior que o estrogênio sozinho, por um motivo que ainda não está claro. O esquema só com estrogênio tem um artigo próprio aqui no blog, sobre o estudo de 2026 com estrogênio isolado.
E o peso, o álcool, o sedentarismo e o cigarro?
Os quatro aparecem nos estudos de câncer de mama ao lado dos hormônios. Uma estimativa feita na Holanda e publicada em 2015 na revista Breast Cancer Research and Treatment atribuiu ao excesso de peso 8,8% dos casos de câncer de mama depois da menopausa. Ao álcool, 6,6%. Ao sedentarismo, 5,5%, e ao cigarro, 4,6%.
Cada 5 kg ganhos na vida adulta se associam a 8% mais risco de câncer de mama depois da menopausa. As mulheres que mais ganharam peso tiveram risco 55% maior que as que menos ganharam, e antes da menopausa não houve associação. Os números são de uma meta-análise, o tipo de estudo que junta os resultados de vários outros, publicada em 2021 na revista Obesity Research & Clinical Practice.
Depois da menopausa, os ovários param de produzir estrogênio, e o que resta no corpo passa a ser fabricado principalmente na gordura. Quanto mais gordura, mais estrogênio circulando. A maior parte dos cânceres de mama dessa fase é de um tipo que responde ao estrogênio. Para os autores da análise do Lancet, é essa atividade a mais do estrogênio que liga a gordura ao câncer de mama depois da menopausa.
No álcool, o risco sobe com a dose. Quem bebe até uma dose por dia teve risco 4% maior que quem não bebe ou bebe só de vez em quando. Quem bebe mais de quatro doses por dia, 61% maior. A conta é de uma meta-análise de 2015 do British Journal of Cancer.
As mulheres muito ativas tiveram 14% menos câncer de mama que as que não chegam ao mínimo recomendado de atividade, numa revisão da revista médica BMJ, de 2016. Quem fuma ou já fumou teve risco 10% maior que quem nunca fumou, numa meta-análise de 2015 da Breast Cancer Research and Treatment.
O medo da reposição hormonal faz sentido?
Faz sentido para o esquema com progestagênio sintético e para o uso por mais de cinco anos. Para o esquema só com estrogênio, os estudos divergem. Para "reposição hormonal" em geral, o medo erra o alvo, porque põe no mesmo nome tratamentos com resultados diferentes.
A análise do Lancet e a meta-análise do British Journal of Cancer são estudos diferentes, com grupos de comparação diferentes. Ainda assim, o aumento de 60% de quem usava estrogênio com progestagênio havia de um a quatro anos é da mesma ordem do aumento de 61% de quem bebe mais de quatro doses por dia.
Ter medo de reposição hormonal em geral é ter medo do nome. O risco que os estudos mediram depende de qual hormônio e de quanto tempo.
O que isso muda pra você
Se você faz ou pensa em fazer reposição hormonal, duas informações do seu tratamento entram na conta do câncer de mama: qual hormônio acompanha o estrogênio e há quanto tempo você usa.
Quem define hormônio e tempo de uso é o médico, em avaliação individual. Leve à consulta o caso de câncer de mama na família e os sintomas que ficaram sem tratamento por medo. Veja o que investigamos numa avaliação.
Em peso, álcool, sedentarismo e cigarro dá para mexer, e vale pedir ajuda para o que pesar mais no seu caso. A mamografia segue em dia, na frequência combinada com o seu médico.
O autor declara não ter conflito de interesse.
Reposição hormonal se decide caso a caso
Uma avaliação médica olha o seu histórico e o seu risco antes de definir o tratamento.
Conheça como funciona o atendimentoPerguntas frequentes
O risco de câncer de mama continua depois de parar a reposição hormonal?
Segundo a análise publicada na revista médica Lancet em 2019, parte do aumento do risco de câncer de mama continuou por mais de dez anos depois de parar a reposição hormonal, e foi maior em quem usou por mais tempo. Quem usou por menos de um ano teve pouco aumento de risco. Pela conta dos autores, cerca de metade dos casos a mais aparece durante cinco anos de uso e a outra metade nos quinze anos seguintes.
A progesterona igual à do corpo tem menos risco para a mama do que a sintética?
Por até cinco anos, sim, segundo revisão de 2018 da revista médica Climacteric. Num estudo francês de 2008, da revista Breast Cancer Research and Treatment, o risco de câncer de mama com estrogênio e progesterona igual à do corpo foi igual ao de quem nunca fez reposição hormonal; com a maioria dos progestagênios sintéticos, foi 69% maior. Depois de cinco anos, a análise da revista Lancet de 2019 encontrou risco cerca de duas vezes maior também com ela.
Quanto tempo de reposição hormonal aumenta o risco de câncer de mama?
Na análise da revista médica Lancet de 2019, entre um e quatro anos de uso, o risco de quem usava estrogênio com progestagênio, quase sempre o sintético, era 60% maior que o de quem nunca usou; entre cinco e catorze anos, cerca do dobro. Com menos de um ano de reposição hormonal, o aumento foi pequeno. Com estrogênio e progesterona igual à do corpo, revisão de 2018 da revista Climacteric não encontrou aumento em até cinco anos.
Ganhar peso aumenta o risco de câncer de mama?
Depois da menopausa, os estudos mostram associação. Segundo revisão de estudos de 2021 da revista Obesity Research & Clinical Practice, cada 5 kg ganhos na vida adulta se associam a 8% mais risco de câncer de mama depois da menopausa. Antes da menopausa, a mesma revisão não encontrou associação. Numa estimativa holandesa de 2015, da revista Breast Cancer Research and Treatment, 8,8% dos casos de câncer de mama depois da menopausa foram atribuídos ao excesso de peso.
