Testosterona faz mal ao coração? O que mostrou o estudo com 5.246 homens
O ensaio incluiu justamente os homens que os médicos evitavam tratar, os que já tinham doença no coração. E a exigência de entrada dele é a mesma que o Conselho Federal de Medicina cobra no Brasil desde 2023.
- Um ensaio clínico com 5.246 homens de 45 a 80 anos testou se repor testosterona aumenta o risco cardiovascular, e infarto, AVC e morte do coração ocorreram na mesma proporção de quem recebeu placebo.
- O estudo escolheu de propósito homens que já tinham doença cardiovascular ou risco alto, que são justamente aqueles em que o risco apareceria primeiro, se existisse.
- O mesmo estudo encontrou mais casos de alteração no ritmo do coração, coágulo no pulmão e alteração na função dos rins no grupo que recebeu testosterona.
- Para entrar no estudo, o homem precisava ter sintomas e a deficiência confirmada em duas dosagens de sangue, que é a mesma exigência da Resolução CFM nº 2.333/2023 no Brasil.
Não. Em homens com deficiência de testosterona confirmada em exame, repor o hormônio não aumentou infarto, AVC nem morte por causa cardiovascular. Foi o que mostrou um ensaio publicado em 2023 no New England Journal of Medicine, com 5.246 homens acompanhados por quase três anos.
O que dá peso a esse resultado é quem foi testado. Não foram homens saudáveis. Foram homens de 45 a 80 anos que já tinham doença cardiovascular, ou risco alto de ter. Exatamente os que muitos médicos deixavam sem tratamento, por precaução.
Só que o resultado vem com uma condição, e é ela que decide se ele vale para você.
De onde veio essa suspeita
Durante mais de uma década, a reposição de testosterona carregou uma fama que nunca tinha sido testada num ensaio grande e desenhado para isso. A suspeita não era invenção. Vinha de estudos observacionais, o tipo de pesquisa que acompanha quem já usa o hormônio e compara com quem não usa. Esse desenho mostra companhia entre duas coisas, não causa.
A dúvida era razoável, e a consequência foi concreta. O homem que mais tinha motivo para tratar costumava ser o que menos tratava, porque a testosterona baixa raramente vem sozinha: ela caminha junto de obesidade, diabetes e humor deprimido, que são as mesmas condições que pesam no coração.
Faltava alguém testar se o medo tinha o tamanho que aparentava.
O que o ensaio fez
O TRAVERSE, publicado em 2023, sorteou 5.246 homens entre receber gel de testosterona ou um gel sem hormônio nenhum. Nem os participantes nem os médicos sabiam quem estava em qual grupo. O tratamento durou em média 21,7 meses, e o acompanhamento chegou a 33.
A escolha da população é a parte que mais importa. Todos tinham entre 45 e 80 anos. Todos tinham doença cardiovascular estabelecida ou risco alto. Todos relatavam sintomas de deficiência, e todos tinham a testosterona baixa confirmada em duas coletas de sangue em jejum.
Se repor testosterona forçasse o coração, era nesse grupo que apareceria. Um coração já frágil é onde o dano se manifesta primeiro.
O desfecho principal reunia morte por causa cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal. Ele ocorreu em 7,0% dos homens que receberam testosterona e em 7,3% dos que receberam o gel sem hormônio. Praticamente idêntico. A incidência de cada um desses eventos, olhados separadamente, também foi semelhante nos dois grupos. Câncer de próstata não aumentou.
O que apareceu no lugar
O mesmo ensaio encontrou três coisas mais frequentes no grupo da testosterona: fibrilação atrial, que é uma alteração no ritmo do coração; embolia pulmonar, que é um coágulo que chega ao pulmão; e lesão renal aguda, uma queda rápida na função dos rins.
Aqui vale um cuidado que o próprio desenho do estudo impõe. Um ensaio de não inferioridade mostra que o tratamento não é pior que o placebo. Ele não mostra que é melhor. Quem lê esse resultado como prova de que repor testosterona protege o coração está lendo mais do que está escrito, e nenhuma dessas linhas promete benefício cardiovascular.
O que os três achados dizem é outra coisa, e é prática. O acompanhamento faz parte do tratamento tanto quanto a prescrição.
Repor um hormônio é abrir um processo, não resolver uma pendência.
O ensaio absolveu a testosterona do infarto em homens com deficiência confirmada. Ele não absolveu ninguém da consulta de acompanhamento, e é essa diferença que separa tratar de arriscar.
Reposição é a mesma coisa que anabolizante?
Não, e a confusão entre as duas explica boa parte do medo que sobra.
Reposição devolve ao corpo um hormônio que ele deixou de produzir em quantidade suficiente, em dose que recoloca o valor na faixa fisiológica. Abuso de esteroides androgênicos usa doses muito acima da fisiológica, para ganho de massa muscular ou desempenho esportivo, em quem não tem deficiência nenhuma.
Os danos cardiovasculares mais descritos na literatura, como hipertrofia do coração, arritmias e infarto, estão no segundo cenário. A exposição de motivos da Resolução CFM nº 2.333/2023 é explícita ao localizá-los em doses suprafisiológicas e em combinação com outras substâncias.
Quando alguém pergunta se testosterona faz mal ao coração, quase sempre está com a imagem do abuso na cabeça e a pergunta da reposição na boca.
O que a regra brasileira já exige
Aqui a leitura muda de país, e a coincidência vale reparar.
A Resolução CFM nº 2.333/2023, publicada em 11 de abril de 2023, veda ao médico brasileiro utilizar qualquer formulação de testosterona sem a devida comprovação diagnóstica da deficiência. O artigo 2º vai adiante: a reposição está indicada quando há deficiência específica comprovada e nexo causal entre a deficiência e o quadro clínico.
Agora compare com a porta de entrada do ensaio. Sintomas mais deficiência confirmada em duas dosagens.
É a mesma exigência, escrita duas vezes, em dois continentes, por motivos diferentes. O ensaio pediu isso para saber de quem estava falando. A norma brasileira pede isso para proteger quem procura tratamento. E o resultado prático é o mesmo: quem não passou por essa porta não está nessa conta.
Em agosto de 2026, um painel internacional de clínicos gerais, endocrinologistas, urologistas e patologistas clínicos publicou dez recomendações orientando o médico de atenção primária a diagnosticar e tratar deficiência de testosterona, em vez de encaminhar todo caso ao especialista. O argumento é prático: a maioria dos casos chega primeiro ao generalista, e as condições que andam junto já são cuidadas por ele.
É um movimento na direção certa. Ampliar quem pode conduzir esse diagnóstico amplia o acesso de quem hoje espera meses por uma vaga com especialista, desde que a porta de entrada continue sendo a mesma. Democratizar o acesso não é afrouxar o critério; é aplicar o mesmo critério em mais consultórios.
O que isso muda pra você
Se você tem sintomas que não passam, como cansaço que o sono não resolve, queda de libido, perda de massa muscular ou humor mais baixo do que costumava ser, o passo seguinte é dosar. E a dosagem se repete: valor isolado engana, porque a testosterona varia ao longo do dia e entre laboratórios.
Se a deficiência se confirmar e você já tiver algum problema cardiovascular, esse ensaio é uma boa notícia para o seu caso específico. Foi para gente como você que ele foi desenhado.
Se o que te trouxe aqui foi uma dificuldade de ereção, vale ler também o que a disfunção erétil diz sobre as artérias. A testosterona atua principalmente sobre o desejo, e a ereção é mecânica de fluxo. Repor o hormônio pode melhorar a libido e deixar um problema circulatório exatamente onde estava.
Nada disso é ordem de exame. É o desenho de um raciocínio, e o seu depende da sua história. Só uma avaliação médica individual diz o que vale para você.
Sintoma que não passa merece investigação
Se você quer entender o que está acontecendo com a sua energia, o seu sono e o seu corpo antes de decidir qualquer coisa, vamos olhar isso com método.
Agendar avaliaçãoPerguntas frequentes
Testosterona faz mal ao coração?
Em homens com deficiência de testosterona confirmada em exame, não. Um ensaio clínico com 5.246 homens de alto risco cardiovascular, publicado em 2023, encontrou infarto, AVC e morte por causa cardiovascular na mesma proporção entre quem recebeu testosterona e quem recebeu placebo. O resultado se aplica a quem tem a deficiência confirmada, não a quem usa o hormônio sem diagnóstico.
Posso repor testosterona se já tenho problema no coração?
Foi exatamente essa a população estudada. O ensaio incluiu apenas homens que já tinham doença cardiovascular ou risco alto, e não encontrou aumento de eventos cardíacos maiores. A decisão continua sendo individual e depende da avaliação do seu caso, mas a preocupação que antes impedia o tratamento não se confirmou.
O que o médico precisa comprovar antes de prescrever testosterona no Brasil?
A Resolução CFM nº 2.333/2023 veda o uso de qualquer formulação de testosterona sem comprovação diagnóstica da deficiência. Na prática, isso significa sintomas compatíveis mais dosagem laboratorial baixa e confirmada, com relação clara entre a deficiência e o quadro clínico do paciente.
Reposição de testosterona é a mesma coisa que anabolizante?
Não. Reposição devolve ao corpo um hormônio que ele deixou de produzir em quantidade suficiente, em dose que recoloca o valor na faixa normal. O uso de esteroides androgênicos para ganho de massa muscular ou desempenho esportivo emprega doses muito acima da fisiológica, em pessoas sem deficiência, e é vedado pelo CFM. Os danos cardiovasculares mais descritos na literatura vêm do segundo cenário.
Quanto tempo demora para saber se a reposição está funcionando?
Não há resposta única, e é por isso que o acompanhamento existe. O ensaio citado tratou os participantes por cerca de 22 meses em média, com monitoramento de sintomas e de exames ao longo de todo o período. A avaliação de resposta é individual e feita em consulta.
