Dr. Vinícius Augusto Silva Santos · CRM 205908/SP · MÉDICO
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Menopausa no pronto-socorro: 413 mil atendimentos, e ninguém olhou pra ela

5 min de leitura · 11 de agosto de 2026 · Dr. Vinícius Augusto Silva Santos

Um estudo do Einstein rastreou 97 mil mulheres de 40 a 65 anos. Em menos de 1 a cada 100, alguém escreveu a palavra no prontuário.

Menopausa no pronto-socorro: 413 mil atendimentos, e ninguém olhou pra ela
  • Um estudo do Hospital Israelita Albert Einstein analisou 413.414 atendimentos de emergência feitos por 97.105 mulheres de 40 a 65 anos, entre janeiro de 2017 e abril de 2025.
  • O código de menopausa entrou no prontuário de apenas 0,79% dessas mulheres, e caiu para 0,34% na faixa dos 40 aos 44 anos.
  • O registro dependeu principalmente da presença de sangramento uterino anormal, e não do conjunto de sintomas que a mulher levou ao pronto-socorro.
  • Entre as mulheres que voltaram ao pronto-socorro em até 72 horas com queixa cardiorrespiratória inespecífica, 1,5% tinha doença cardiovascular grave.

Em 413.414 atendimentos de emergência feitos por 97.105 mulheres de 40 a 65 anos, o código de menopausa entrou no prontuário de 0,79% delas. Menos de uma a cada cem. O número mais baixo apareceu onde a transição começa: 0,34% entre 40 e 44 anos.

Os dados são do estudo MIMOSA, publicado em agosto de 2026 na revista Maturitas por pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Oito anos de pronto-socorro varridos, de janeiro de 2017 a abril de 2025, atrás de mulheres que chegaram com sintomas compatíveis com menopausa. Encontraram quase cem mil. A palavra quase nunca apareceu no registro.

O que o estudo mediu foi o código. Os autores fazem questão de dizer isso, e eles estão certos. Minha leitura é outra, e é opinião: quando ninguém escreve, ninguém olhou.

Por que a palavra some justamente aos 40

Perimenopausa é a fase de transição que começa anos antes da última menstruação, em que os hormônios oscilam em vez de simplesmente caírem. Parece detalhe de bula. É o que explica por que os sintomas dessa faixa não se parecem com nada do que se imagina quando se ouve a palavra menopausa.

Calor todo mundo espera. O resto ninguém avisa. O coração disparando às três da manhã sem motivo nenhum. A sensação de que falta ar no meio de uma reunião tranquila. Acordar às 4h com o corpo em estado de alerta e não conseguir voltar a dormir.

Sintomas sem endereço. O ginecologista acha que é caso do cardiologista. O cardiologista devolve para o psiquiatra. E a mulher fica no meio, carregando um sintoma que ninguém quer.

O estudo mostrou esse mecanismo acontecendo dentro do prontuário. O que mais aumentou a chance de alguém registrar menopausa não foi o quadro clínico da mulher: foi ter outro código ginecológico junto. Com sangramento uterino anormal registrado, a chance subiu 31 vezes. Com síndrome geniturinária da menopausa, 8 vezes.

A menopausa precisou de uma âncora ginecológica para ser nomeada. A mulher de 42 anos que ainda menstrua todo mês, com palpitação e insônia, não tem âncora nenhuma. Ela chega ao pronto-socorro sem nada que aponte para o lugar certo.

O pronto-socorro fez o trabalho dele

Aqui eu preciso defender o plantonista, porque a leitura preguiçosa desse estudo é dizer que o pronto-socorro errou. Ele não errou.

O trabalho do pronto-socorro é excluir o que mata hoje, e os dados mostram que ele fez isso bem. Quando os pesquisadores processaram os textos livres dos prontuários levando em conta as negações, a frequência de dor torácica caiu de 20,5% para 5,6%, e a de falta de ar, de 30,3% para 6,8%. Traduzindo: na maior parte das vezes em que “dor no peito” aparecia escrita, era o médico registrando que não havia dor no peito. Ele estava procurando o coração. Procurou e não achou.

E não achou porque quase nunca havia. Entre as mulheres que voltaram ao pronto-socorro em até 72 horas com queixa cardiorrespiratória inespecífica, 1,5% tinha doença cardiovascular grave.

“Sem alteração aguda” é uma resposta correta para a pergunta do pronto-socorro. Só não é uma resposta para a sua.

O problema mora no que acontece depois. A mulher recebe alta com um exame normal na mão, um susto na memória e nenhuma explicação. Como ninguém escreveu nada, da próxima vez tudo recomeça do zero.

Pronto-socorro normal responde uma pergunta só: você corre risco agora? Sobre estar bem, aquele exame não disse nada. E a primeira resposta vem sendo entregue no lugar da segunda há anos.

O que se investiga quando a urgência já foi descartada

Fora do plantão, com tempo, a investigação muda de pergunta. Deixa de ser “isso é uma emergência?” e passa a ser “por que isso está acontecendo agora?”.

No consultório em Alphaville, é o que eu mais faço com essa paciente:

Uma linha do tempo dos sintomas. Quando começou, o que piora, se aparece sempre nos mesmos dias do ciclo. Palpitação que respeita calendário conta uma história diferente de palpitação aleatória. Ninguém monta essa linha do tempo numa sala de emergência às duas da manhã.

Tireoide. Ela imita a perimenopausa quase ponto a ponto: coração acelerado, insônia, ansiedade, mudança de peso. Investigar as duas juntas evita tratar uma e deixar a outra correndo solta.

O perfil hormonal lido no contexto certo. Um exame hormonal isolado, em quem ainda menstrua, pode dar valores completamente diferentes com uma semana de intervalo. O que vale é a leitura junto do ciclo e dos sintomas.

Ferro, glicemia e insulina. Anemia e resistência à insulina, que é quando o corpo precisa de cada vez mais insulina para o mesmo efeito, produzem cansaço e taquicardia que se confundem com sintoma hormonal.

Risco cardiovascular futuro. Este é o ponto que os autores do MIMOSA sublinham e que quase ninguém comenta: sintomas vasomotores nessa idade estão associados a maior risco cardiovascular anos depois. Isso é associação. Ninguém provou causa. Ainda assim, é motivo de sobra para parar de tratar esses sintomas como frescura.

Nada disso é exame secreto. É investigação comum, feita fora da urgência, com tempo de ler o conjunto. Você pode ver o que investigamos numa avaliação e como funciona o acompanhamento.

O que ainda não sabemos

O MIMOSA é um estudo retrospectivo de um único hospital, com dados anonimizados de prontuário. Ele mostra o que foi registrado, não o que foi pensado nem o que foi dito à paciente. Os próprios autores classificam o achado como gerador de hipótese e recomendam duas coisas: treinamento para médicos de emergência e busca ativa de casos entre mulheres de meia-idade com queixas inespecíficas repetidas.

Um retrato de oito anos e quase cem mil mulheres não vira exceção porque saiu de um hospital só. A ficha completa: Cabral Kanaan C, de Lima Freitas M, Pereira AJ, Amaro Junior E. Maturitas, 2026;212:109079, DOI 10.1016/j.maturitas.2026.109079.

O que isso muda pra você

Se você tem entre 40 e 55 anos e já viveu essa noite, duas coisas.

A ida ao pronto-socorro não foi perdida. Ela excluiu o que precisava ser excluído, e isso vale muito. Guarde o exame.

E leve anotado: em que dias do mês os sintomas aparecem, a que horas eles acordam você, há quanto tempo isso se repete, o que estava acontecendo quando começou. Esse papel resolve mais do que qualquer exame que você faça antes de tê-lo.

Você já ouviu que não deu nada?

Repetir o mesmo exame não vai mudar a resposta. O que muda é alguém sentar e ler o conjunto.

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Perguntas frequentes

Palpitação e falta de ar podem ser da menopausa?

Sim. Palpitação, falta de ar, insônia e ondas de calor são sintomas descritos da transição menopáusica, e podem aparecer anos antes da última menstruação. São também sintomas de outras condições, incluindo problemas cardíacos e de tireoide. Por isso a ordem importa: primeiro se exclui o que é urgente, depois se investiga o que é hormonal. Uma coisa não substitui a outra.

Se meus exames deram normais no pronto-socorro, está tudo bem?

Não necessariamente. Exames normais no pronto-socorro significam que você não está em risco imediato de vida, que é exatamente o que aquele atendimento precisa responder. Não significam que a causa do sintoma foi encontrada. No estudo MIMOSA, entre mulheres de 40 a 65 anos que voltaram ao pronto-socorro em 72 horas com queixa cardiorrespiratória inespecífica, 1,5% tinha doença cardiovascular grave.

O que é perimenopausa e como ela é diferente da menopausa?

Perimenopausa é a fase de transição que começa anos antes da última menstruação, em que os hormônios oscilam em vez de caírem de forma estável. Menopausa é o marco: doze meses seguidos sem menstruar. A maior parte dos sintomas que incomodam acontece na perimenopausa, quando a mulher ainda menstrua, e é justamente aí que o diagnóstico costuma demorar mais.

Com que idade a perimenopausa costuma começar?

Ela pode começar por volta dos 40 anos, às vezes antes. No estudo brasileiro publicado em 2026, o registro de menopausa no pronto-socorro foi mais baixo justamente na faixa de 40 a 44 anos, 0,34%, contra 1,6% entre 50 e 54 anos. Menstruar todo mês não exclui a possibilidade de já estar na transição.

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